A Palavra não Escrita




Depois de seis anos, escrevendo o meu primeiro livro de poesias, acabou de sair a publicação de "A Palavra Não Escrita". Ele não é fruto unicamente do meu esforço, mas de muitas outras pessoas, algumas delas não tive o prazer de conhecer, mas auxiliaram na minha formação o suficiente para que a obra viesse a lume. 

Em especial, queria agradecer ao amigo e irmão Sammis Reachers, do Poesia Evangélica, que empreendeu um trabalho primoroso, dedicado e não remunerado, para fazer a edição e a arte (e se recusou a ter o nome incluído nos créditos). 

Por isso, nada melhor do que deixá-lo falar, transcrevendo, a seguir, o prefácio que ele gentilmente elaborou para o meu livro. Uma honra e tanto!

A todos que participaram direta ou indiretamente na realização dessa obra, o meu sincero e muito obrigado.

Em especial a Cristo, sem o qual não haveria motivação e força para concluí-lo!

A ele, toda honra e glória!

PS: Baixem, leiam e divulguem o livro, gratuitamente!

Ele pode ser acessado na página do Poesia Evangélica
Ou
No site Monergismo, do amigo e irmão, Felipe Sabino. 
Ou, 
ainda, no Internautas Cristãos, do também amigo e irmão Tiago Knox.


PREFÁCIO

"A poesia de Jorge F. Isah nasce carregada de enlevo hermético. Como os mestres hermetistas italianos do século XX (Montale, Quasimodo, Ungaretti), a cada poema de Jorge somos confrontados pelo toque da Esfinge, “decifra-me ou te devoro”, e mais, “decifra-me e devora-me”: que maior convite pode fazer um poeta, pode propor um poema?
  
E Jorge avança, como alfarrabista de palavras que é, como artista ora cônscio, ora febril, a estabelecer seus mosaicos na tabula rasa do papel; sua arte nunca é superficial, nunca é simplória: ela não solicita, mas é uma onda densa que arrasta, desperta e conclama ao mergulho em suas torrentes verbais. Exige a atenção, engaja e transveste seus leitores no tensionado herói Teseu, cuja atenção freme ululante enquanto avança pelo labirinto - cujas bifurcações vão se adensando a cada quadra. O prêmio para aquele que perseverar está ao fim do labirinto, embora feito da soma de suas partes: o gozo silencioso da celebração poética, o graal misterioso e assaz buscado, o pequeno êxtase quase epifânico (pois a poesia tem e terá sempre - quem a furtará? - algo de religião, de religação com o divino) que só a verdadeira arte pode inocular nas veias da alma. 

Este A Palavra Não Escrita é um manjar pleno para o verdadeiro apreciador de poesia, posto em salvas de prata onde o leitor sorverá a multiplicidade de percepções do autor, cujos versos transitam das elucubrações de sua alma às mazelas da sociedade, do fulgor metapoético, da poesia que se dobra sobre si mesma, à louvação dAquele que é a fonte matricial de toda poesia, justiça e beleza.  

Uma jornada com poder de transformar percepções, cujo arco tensionado se estende do álacre ao pungente: esta é a proposta de Jorge Isah neste seu elaborado labirinto."
   Sammis Reachers

Jesus segundo Bruno Tolentino

Por Bruno Tolentino

O Cristo não é
um belo episódio
da história ou da fé:

nem o clavicórdio
nos dedos da luz,
nem o monocórdio

chamado da Cruz.
O crucificado
chamado Jesus

é o encontro marcado
entre a solidão
e o significado

do teu coração:
de um lado teu medo,
teu ódio, teu não;

de outro o segredo
com seu cofre aberto,
onde o teu degredo,

onde o teu deserto,
vão morrer, mas vão
morrer muito perto

da ressurreição.

As horas de Katharina. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 180

FONTE: CASAL 20

O AVERSO

Por Fábio Ribas
Para Lucila Ribas

Ainda que recostada sobre meu peito,
instaurada está a tua arcana distância:
a medida imensurável por excessiva!

Teu inaccessível pensamento,
o grito amortecido no silêncio:
a chave falsa que não te abre!

O manifesto que não me escreves,
a pedra em que lavro - sou ourives:
segredos revelados na noite escura!

O símbolo do corpo que não interpreto,
o código da tua alma que não te decifro:
as sombras claras nos meus olhos cegos!

O fugidio de tuas intenções anunciadas,
eternidade efêmera do segundo contido:
lírio branco que nasce e morre todo dia!

Incapaz de reter na rima a tez da tua vida,
descerra-se de todo meu poema o fracasso:
a condição secreta da minha palavra falida!

A pedra perfeita, da qual meu verso é arrancado,
é este teu mistério sincero que me deixa inquieto:
riso sério que mascara de teu furtivo o teu reverso!

FONTE: CASAL 20

RECORDAÇÃO

Rainer Maria Rilke

E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou.


In "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

E a morte perderá o seu domínio

Dylan Thomas


E a morte perderá o seu domínio.

Nús os homens mortos irão confundir-se

com o homem no vento e na lua do poente;

quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos

hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.

Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;

mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;

mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;

e a morte perderá o seu domínio.



E a morte perderá o seu domínio.

Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar

não morrerão com a chegada do vento;

ainda que, na roda da tortura, comecem

os tendões a ceder, jamais se partirão;

entre as suas mãos será destruída a fé

e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;

embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;

e a morte perderá o seu domínio.



E a morte perderá o seu domínio.

Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos

nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;

onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor

erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;

ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer

como pregos as suas cabeças pelas margaridas;

é no sol que irrompem até que o sol se extinga,

e a morte perderá o seu domínio.


(Tradução de Fernando Guimarães)

MINHA SOMBRA


Jorge de Lima
De manhã a minha sombra
Com meu papagaio e o meu macaco
Começam a me arremedar.
E quando saio
A minha sombra vai comigo
Fazendo o que eu faço
Seguindo os meus passos.

Depois é meio-dia.
E a minha sombra fica do tamaninho
De quando eu era menino.
Depois é tardinha.
E a minha sombra tão comprida
Brinca de pernas de pau.

Minha sombra , eu só queria
Ter o humor que você tem,
Ter a sua meninice,
Ser igualzinho a você.

E de noite quando escrevo,
Fazer como você faz,
Como eu fazia em criança:
Minha sombra
Você põe a sua mão
Por baixo da minha mão,
Vai cobrindo o rascunho dos meus poemas
Se saber ler e escrever.

O VERME


Bruno Tolentino

         O coração, enfermo porque vive
do que morre,debruça-se à janela,
vê a luz desertando-o no declive
entre a vida e a paixão do ser por ela,
         e comovido vai compor a tela
em que a reduz para contê-la. Eu tive
essa mesma ilusão, compus a bela
equação passional da mente livre
         e pus meu coração nesse vazio.
Mas falhei. Ele nunca permitiu
o oásis ilusório na epiderme
         sensível do real. Eu tinha um verme
no coração, que foi roendo o fio
da ilusão e acabou por socorrer-me.

16 Valse Oubliee

Bruno Tolentino

Certas estrofes perdidas
longe de papel e lapis
vão e vêm e doem-me ainda,
tão límpidas quanto rápidas,

como certos, certos fatos
de uma fluida inconseqüência
na rapidez da existência,
certos rasgos, certos raptos,

certas cenas, certa faca
de que às vezes sou bainha,
afiada quando ataca
e cega quando sozinha.

CONFISSÃO

Charles Bukowski

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
"Hank!"
e Hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.


Tradução: Jorge Wanderley

ESTE PÃO QUE VENHO ABRIR

Dylan Thomas

Este pão que venho abrir foi outrora centeio,
este vinho sobre uma ramada desconhecida
ficou submerso nos seus frutos;
o homem em cada dia, em cada noite o vento
arrancaram a alegria dos cachos e derrubaram as searas.

Com o vinho, outrora o sangue de estio
palpitava na carne que ornamentava a videira,
outrora neste pão
era feliz sob o vento o centeio;
mas o homem despedaçou o sol e abateu o vento.

Esta carne que despedaças, este sangue
que traz a desolação pelas veias,
eram os cachos e o centeio
nascidos das raízes e da seiva dos sentidos;
este meu vinho que bebes, este pão de que te alimentas.

[tradução: Fernando Guimarães]

AS ESTÂNCIAS

Guilherme de Almeida

Num círculo vicioso, homem, todos os teus
esforços se consomem:
o homem que quer ser rei, o rei que quer ser Deus
e Deus que se faz homem!



[VIII - Ainda sobre a ambição]

A TENTAÇÃO

Murilo Mendes


Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".

HORA GRAVE

Rainer Maria Rilke

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.
(Tradução: Paulo Plínio Abreu)

POEMA DE OUTUBRO

Dylan Thomas

Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
e do bosque ao lado,
E da praia empoçada de mexilhões
E sacralizada pelas garças
O aceno da manhã
Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a imóvel cidade adormecida.
Meu aniversário começou com as aves marinhas
E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.
Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de outubro
Estival
Sobre os ombros da colina,
Eram climas amorosos e houve doces cantores
Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
Como se retorcia a chuva
O vento soprava frio No bosque ao longe que jazia a meus pés.

Pálida chuva sobre o porto que encolhia
E sobre o mar que umedecia a igreja do tamanho de um caracol
Com seus cornos através da névoa e do castelo
Encardido como as corujas Mas todos os jardins
Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu maravilhar-me
Meu aniversário Ia adiante mas o tempo girava em derredor.
Ao girar me afastava do país em júbilo
E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um prodígio do verão
Com maçãs
Pêras e groselhas encarnadas
E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe Em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde capela
E pêlos campos da infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
se enternecia em mim.
Esses eram os bosques e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo Na água e nos pássaros canoros.
E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo ano
Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.
Oh, pudesse a verdade de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um ano depois.

(tradução: Ivan Junqueira)

SEGUNDO MOVIMENTO

Bruno Tolentino

Mas vem o amor, o amor que faz tão doce
o travo em que circula à flor do instante,
e entre resíduos vai como se fosse
suficiente, plácido e constante...
Mas se é amor é muito mais cortante
e em lâmina tão leve disfarçou-se
que por melhor alar seu golpe pôs
cintilações de ganho em cada instante.
E a alma se insurge, cobra a amor que abrande
seu ginete malsão tonto de posse,
esse peso de corpo que a alma torce
e não doma, esse breve, esse bastante
soluço da vontade no imperfeito —
mas a alma cede, a alma sucumbe ao peito... 

SAUDAÇÃO

Por Ezra Pond

Oh geração dos afetados consumados
          e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
          e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
          e não possuem nem o que vestir.
(tradução de Mário Faustino)

VIA CRUCIS

 Bruno Tolentino

A Via Crucis foi uma selvageria,
a Crucifixão uma brutalidade;
mas em três, quatro horas, acabou a agonia,
baixou a eternidade.
Eu vivo aqui, crucificada noite e dia,
carrego da manhã à tarde
o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia,
lenta, fria, covarde.
Ah, como eu preferia
que me crucificassem de uma vez, sem o alarde
de algum terceiro dia!
Mas toca-me seguir nessa monotonia,
a agonia de alçar-me do catre
e abrir de novo os braços, vazia.

O EXILADO

Murilo Mendes

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
Os sentidos em alarme gritam:
O demônio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida. 


O ESPELHO

Murilo Mendes

O céu investe contra o outro céu.
É terrível pensar que a morte está
Não apenas no fim, mas no princípio
Dos elementos vivos da criação.

Um plano superpõe-se a outro plano,
O mundo se balança entre dois galhos,
Ondas de terror que vão e voltam,
Luz amarga filtrando destes cílios.

Mas quem me vê? Eu mesmo me verei?
Correspondo a um arquétipo ideal.
Signo de futura realidade sou.

A manopla levanta-se pesada,
Atacando a armadura inviolável:
Partiu-se o vidro, incendiou-se o céu.


OS HOMENS OCOS [Poema Completo]

 T.S. ELIOT

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
  II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular
  III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.
  IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.
  V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada
Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
                        Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
                       A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
                        Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.
(tradução:  Ivan Junqueira