16 Valse Oubliee

Bruno Tolentino

Certas estrofes perdidas
longe de papel e lapis
vão e vêm e doem-me ainda,
tão límpidas quanto rápidas,

como certos, certos fatos
de uma fluida inconseqüência
na rapidez da existência,
certos rasgos, certos raptos,

certas cenas, certa faca
de que às vezes sou bainha,
afiada quando ataca
e cega quando sozinha.

CONFISSÃO

Charles Bukowski

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
"Hank!"
e Hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.


Tradução: Jorge Wanderley

ESTE PÃO QUE VENHO ABRIR

Dylan Thomas

Este pão que venho abrir foi outrora centeio,
este vinho sobre uma ramada desconhecida
ficou submerso nos seus frutos;
o homem em cada dia, em cada noite o vento
arrancaram a alegria dos cachos e derrubaram as searas.

Com o vinho, outrora o sangue de estio
palpitava na carne que ornamentava a videira,
outrora neste pão
era feliz sob o vento o centeio;
mas o homem despedaçou o sol e abateu o vento.

Esta carne que despedaças, este sangue
que traz a desolação pelas veias,
eram os cachos e o centeio
nascidos das raízes e da seiva dos sentidos;
este meu vinho que bebes, este pão de que te alimentas.

[tradução: Fernando Guimarães]

AS ESTÂNCIAS

Guilherme de Almeida

Num círculo vicioso, homem, todos os teus
esforços se consomem:
o homem que quer ser rei, o rei que quer ser Deus
e Deus que se faz homem!



[VIII - Ainda sobre a ambição]

A TENTAÇÃO

Murilo Mendes


Diante do crucifixo
Eu paro pálido tremendo
"Já que és o verdadeiro filho de Deus
Desprega a humanidade desta cruz".

HORA GRAVE

Rainer Maria Rilke

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.
(Tradução: Paulo Plínio Abreu)

POEMA DE OUTUBRO

Dylan Thomas

Era o meu trigésimo ano rumo ao céu
Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto
e do bosque ao lado,
E da praia empoçada de mexilhões
E sacralizada pelas garças
O aceno da manhã
Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas
E o chocar-se dos barcos contra o muro emaranhado de redes
Para que de súbito
Me pusesse de pé
E descortinasse a imóvel cidade adormecida.
Meu aniversário começou com as aves marinhas
E os pássaros das árvores aladas esvoaçavam o meu nome
Sobre as granjas e os cavalos brancos
E levantei-me
No chuvoso outono
E perambulei sem rumo sob o aguaceiro de todos os meus dias.
A garça e a maré alta mergulhavam quando tomei a estrada
Acima da divisa
E as portas da cidade
Ainda estavam fechadas enquanto o povo despertava.
Toda uma primavera de cotovias numa nuvem rodopiante
E os arbustos à beira da estrada transbordante de gorjeios
De melros e o sol de outubro
Estival
Sobre os ombros da colina,
Eram climas amorosos e houve doces cantores
Que chegaram de repente na manhã pela qual eu vagava e ouvia
Como se retorcia a chuva
O vento soprava frio No bosque ao longe que jazia a meus pés.

Pálida chuva sobre o porto que encolhia
E sobre o mar que umedecia a igreja do tamanho de um caracol
Com seus cornos através da névoa e do castelo
Encardido como as corujas Mas todos os jardins
Da primavera e do verão floresciam nos contos fantásticos
Para além da divisa e sob a nuvem apinhada de cotovias.
Ali podia eu maravilhar-me
Meu aniversário Ia adiante mas o tempo girava em derredor.
Ao girar me afastava do país em júbilo
E através do ar transfigurado e do céu cujo azul se matizava
Fluía novamente um prodígio do verão
Com maçãs
Pêras e groselhas encarnadas
E no girar do tempo vi tão claro quanto uma criança
Aquelas esquecidas manhãs em que o menino passeava com sua mãe Em meio às parábolas
Da luz solar
E às lendas da verde capela
E pêlos campos da infância duas vezes descritos
Pois suas lágrimas me queimavam as faces e seu coração
se enternecia em mim.
Esses eram os bosques e o rio e o mar
Ali onde um menino
À escuta
Do verão dos mortos sussurrava a verdade de seu êxtase
Às árvores e às pedras e ao peixe na maré.
E todavia o mistério
Pulsava vivo Na água e nos pássaros canoros.
E ali podia eu maravilhar-me com meu aniversário
Que fugia, enquanto o tempo girava em derredor. Mas a verdadeira
Alegria da criança há tanto tempo morta cantava
Ardendo ao sol.
Era o meu trigésimo ano
Rumo ao céu que então se imobilizara no meio-dia do verão
Embora a cidade repousasse lá embaixo coberta de folhas no sangue de outubro.
Oh, pudesse a verdade de meu coração
Ser ainda cantada
Nessa alta colina um ano depois.

(tradução: Ivan Junqueira)

SEGUNDO MOVIMENTO

Bruno Tolentino

Mas vem o amor, o amor que faz tão doce
o travo em que circula à flor do instante,
e entre resíduos vai como se fosse
suficiente, plácido e constante...
Mas se é amor é muito mais cortante
e em lâmina tão leve disfarçou-se
que por melhor alar seu golpe pôs
cintilações de ganho em cada instante.
E a alma se insurge, cobra a amor que abrande
seu ginete malsão tonto de posse,
esse peso de corpo que a alma torce
e não doma, esse breve, esse bastante
soluço da vontade no imperfeito —
mas a alma cede, a alma sucumbe ao peito... 

SAUDAÇÃO

Por Ezra Pond

Oh geração dos afetados consumados
          e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
          e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
          e não possuem nem o que vestir.
(tradução de Mário Faustino)

VIA CRUCIS

 Bruno Tolentino

A Via Crucis foi uma selvageria,
a Crucifixão uma brutalidade;
mas em três, quatro horas, acabou a agonia,
baixou a eternidade.
Eu vivo aqui, crucificada noite e dia,
carrego da manhã à tarde
o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia,
lenta, fria, covarde.
Ah, como eu preferia
que me crucificassem de uma vez, sem o alarde
de algum terceiro dia!
Mas toca-me seguir nessa monotonia,
a agonia de alçar-me do catre
e abrir de novo os braços, vazia.

O EXILADO

Murilo Mendes

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.
Os sentidos em alarme gritam:
O demônio tem mais poder que Deus.
Preciso vomitar a vida em sangue
Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.
Passam ao largo os navios celestes
E os lírios do campo têm veneno.
Nem Job na sua desgraça
Estava despido como eu.
Eu vi a criança negar a graça divina
Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos
E a multidão me apontando como o falso profeta.
Espero a tempestade de fogo
Mais do que um sinal de vida. 


O ESPELHO

Murilo Mendes

O céu investe contra o outro céu.
É terrível pensar que a morte está
Não apenas no fim, mas no princípio
Dos elementos vivos da criação.

Um plano superpõe-se a outro plano,
O mundo se balança entre dois galhos,
Ondas de terror que vão e voltam,
Luz amarga filtrando destes cílios.

Mas quem me vê? Eu mesmo me verei?
Correspondo a um arquétipo ideal.
Signo de futura realidade sou.

A manopla levanta-se pesada,
Atacando a armadura inviolável:
Partiu-se o vidro, incendiou-se o céu.


OS HOMENS OCOS [Poema Completo]

 T.S. ELIOT

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada
Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;
Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
  II
Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo
- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular
  III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.
E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.
  IV
Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio
Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.
  V
Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada
Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
                        Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
                       A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
                        Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.
(tradução:  Ivan Junqueira

O HOMEM QUE CONTEMPLA

Rainer Maria Rilke


Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.
E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.
Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.
Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.
Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"  

Tradução de Maria João Costa Pereira
  
O HOMEM, A LUTA E A ETERNIDADE
Murilo Mendes 

Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!

Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.



A GATA RECOLHIDA
William Cowper

Grave como a um vate convinha,
A gata de um poeta, quietinha,
Dava-se ao vício de encontrar
Cantos nos quais poder ficar,
Segura igual na toca um rato,
E ali pensar em to pacato.
De onde lhe veio essa mania -
Não sei: ou a Natureza a enchia
De filosofia pedestre,
Ou ela a pegou de seu mestre.
Ora subia, bem lampeira,
Num pé de pêra ou macieira
E, na forquilha se instalando,
Via o jardineiro penando.
Ora buscava o refrigério
Num regador velho e vazio
Onde, se um leque ela empunhasse,
Seria dama de alta classe
Pronta num conche a melhor sorte
Para o transporte até a corte.
Mas a mudança contumaz
Não só à nossa raça apraz.
Também é forte entre os bichanos
Esta paixão que arrasta humanos.
A gata, ao ver que no relento
Subir a expunha a muito vento,
Achou a lata do utensílio
Um incômodo reduto frio:
Portanto quis, como variante,
Um lugar mais aconchegante,
Imunte ao frio, infenso ao ar
Que o pêlo poderia estragar,
E o foi buscar para um bom sono
Dentro da casa de seu dono.
Eis que por sorte um escaninho
Forrado do mais pura linho,
Desse trazido por mercantes
Da Índia ao rol das elegantes,
Uma gaveta aberta à frente
No alto da cômoda imponente,
Funda e com espaço para usar,
Intimou-a a lá cochilar;
Sem expressão, tal seu deleite,
Tomou-a a gata por aceite.
Logo espichada no bem-bom
Para ninar-se ao seu ronrom,
Dormia já que nem morrida,
Aheia aos problemas da vida,
Quando surgiu a arrumadeira
E fechou-a, ativa, à carreiras;
Não por maldade, e sim, se errava,
Por não saber quem lá trancava.
Desperta ao choque, esta dizia:
"Gata tratada assim havia?
Ora, a gaveta estava aberta
Só para eu ter morada certa,
Pois bastou eu me acomodar
Para a mocinha a vir fechar.
Que lenços finos! Oh, que incrível!
Que refúgio mais aprazível!
Vou baqui descansar resignada
Até o Sol em retirada
Chame ao jantar e ela então venha
Livrar-me ao certo dessa brenha".
Entardeceu, o Sol baixou
E a gata lá continuou.
Passando a noite lentamente
(E ela no escuro eternamente),
reavivou-se a manhã trêfega,
a tarde cinza fluiu sôfrega
E, qual se a tumba já a tragasse,
Ninguém notou que se ausentasse.
Com fome agora e ânsia de espaço,
Prevendo a gata alto embaraço,
Não mais roncava nem dormia,
Cônscia do risco que corria.
À noite o poeta, atento e sério,
Ouviu unhadas de mistério;
Inquieto o nobre coração,
perguntou-se ele: "O que serão?"
Pôs a cortina bem de lado
E nada viu de inusitado.
Porém, de orelha em pé, supôs
Alguém preso na cômoda a sós
E, incerto, quis por previdência
Ali deixá-lo em permanência.
Por fim um som habitual,
Um longo e taciturno miau,
Ouvido em seu lírico credo,
Consolou-o e espantou o medo:
Largada a cama, ei-lo que, inteiro,
Foi explorar o gaveteiro,
Abrindo embaixo e, ao mesmo escopo,
O resto em série até o topo.
Pois é verdade bem sabida
Que, quando a coisa está perdida,
Em toda parte a gente a sonda,
Menos cheia de si que outrora,
Já não tão tonta à apreensão
De chamar do mundo a atenção,
Mas modesta, sóbria, curada
Das hipérboles tiradas,
Pronta a ceitar qualquer lugar,
Que não gaveta, para estar.
Na volta ao leito o poeta então
Fez a seguinte reflexão:
 
MORAL
 
Cuidado com o sublime enlevo
De seu valor e seu relevo;
O homem que se julga o tal,
Dando-se importância total,
E acha que tudo, à volta, em cheio,
Se move e atua com ele ao meio,
Verá nas horas de aflição
A insensatez dessa expectação.


Tradução: Leonardo Fróes 


O MAU SAMARITANO
Murilo Mendes 

Quantas vezes tenho passado perto de um doente,
Perto de um louco, de um triste, de um miserável,
Sem lhes dar uma palavra de consolo.
Eu bem sei que minha vida é ligada à dos outros,
Que outros precisam de mim que preciso de Deus
Quantas criaturas terão esperado de mim
Apenas um olhar – que eu recusei. 


 
REFLEXÃO No. 1
Murilo Mendes 

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito. 


Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.
SEM ESTRELA
Carlos Nejar

A morte ia comigo e eu, com ela.
E vi o seu ridículo vestido,
o andar desajeitado e sem sentido,
o rosto com penteado de donzela,

sendo tão velha, velha, no ruído
de suas meias e sapatos de heras.
Então não resisti e me ri dela,
caçoava de seus gestos confundidos.

E desta sisudez que nada espera,
mas sabe que na vida um só gemido
pode fazê-la emudecer. Insisto

em rir de sua passagem sem estrela,
sem grandeza nenhuma. E se resisto,
é porque está em mim quem vai vencê-la.

A ROCHA & A TAREFA

A ROCHA [Parte X]
T. S. Eliot

Viste a casa edificada e a contemplaste ornamentada
Por alguém que veio à noite, e a Deus agora se consagra.

Ergue-se agora uma igreja visível, uma luz a mais sobre as
[colinas
De um mundo caótico e obscuro, atormentado pelos pro-
[dígios do medo.
E que diremos no futuro? Que uma igreja foi tudo o que

[logramos construir?
Ou a Igreja Visível irá conquistar o mundo?

A grande serpente jaz sempre semi-alerta, no pélago
[abissal do mundo, enrodilhada

Em suas próprias espirais, até que esfomeada se desperte e

[mova sua cabeça de um para outro lado, à espera de sua

[hora para devorar.

Mas o Mistério da Iniquidade é um abismo tão profundo

[que os olhos mortais não podem perscrutar. Afastai-vos

Daqueles que adoram os olhos dourados da serpente,
Os idólatras, que a si próprio à serpente se imolam. Segui

Vosso caminho e ficai à parte.
Não sejais muito curiosos acerca do Bem e do Mal;
Não almejeis contar as ondas que o Tempo ainda haverá de
[propagar;
Contentai-vos de que haja luz bastante
Para que vosso passo seja dado e encontrado seja o solo

[onde apóia-lo.


Ó Luz Invisível, Te louvamos!

Por demais fulgurante aos olhos dos mortais.

Ó Luz Suprema, Te louvamos por toda luz menor;

Pela luz oriental que de manhã tangencia os campanários,

Pela luz que se debruça à tarde sobre nossas portas oci-

[dentais,

Pelo dilúculo sobre as poças estagnadas quando freme o

[morcego suas asas,

Pela luz do luar e das estrelas, da coruja e da falena,

Pela cintilante luz do pirilampo entre as lâminas da grama,

Ó Luz Invisível, Te adoramos!


Te agradecemos pelas luzes que acendemos,
Pela luz do altar e do sacrário;
Pelas luzes pequeninas dos que à meia-noite meditam

E as luzes que se filtram pelos vidros coloridos das janelas

E a luz que refletem os seixos cinzelados,
A pátina das madeiras entalhadas, a afresco multicor,

Nossa contemplação é submarina, nossos olhos sondam a

[superfície

E vêem a luz que se dispersa por entre as águas irrequietas.

Vemos a luz, mas não a fonte que a irradia.
Ó Luz Invisível, Te glorificamos!


Em nosso ritmo de vida sobre a terra a luz nos afadiga.

Alegremo-nos quando agoniza o dia, quando o jogo finda;

[e o êxtase por demais nos lancina,

Somos crianças prematuramente exaustas: crianças que

[ficam à noite acordadas e que o sono só trespassa quando

[o fogo do rojão se alastra; e o dia é longo para o trabalho

[ou para em folguedo passá-lo

Fadigam-nos a distração ou a concentração, dormimos
[sempre alegres por adormecermos,

Controlados pelo ritmo do sangue e do dia e da noite e das

[estações.
E devemos apagar o candeeiro, expurgar a luz e reacendê-la;

Devemos para sempre avivar e reacender a chama.

Te agradecemos pois por nossa luz exígua, marchetada de

[sombras.
Te agradecemos por havermos sido impelidos a edificar, a

[descobrir, a dar forma às pontas de nossos dedos e aos
[raios de nosso olhar.

E quando houvermos erguido um altar à Invisível Luz, pos-

[samos nós dispor sobre eles as pequeninas luzes para as

[quais nossa visão corpórea foi criada.

E Te agradecemos pelas trevas que nos recordam a luz.
Ó Luz Invisível, por tua grande glória Te rendemos graça!

Poesia - Editora Nova Fronteira
Tradução: Ivan Junqueira


A TAREFA
William Cowper

Eu era um cervo ferido, que deixou o bando
Faz muito tempo; Meu lado arquejante estava
carregado
Com muitas flechas profundamente cravadas,
quando me retirei
Para procurar uma morte tranquila em sombras
distantes.
Ali fui encontrado por alguém que tinha sido ferido,
ele mesmo,
pelos arqueiros. em seu lado ele carregava as
cicatrizes cruéis
Também nas suas mãos e em seus pés.
Com força gentil, tomando os dardos,
Arrancou-os, curou-me e me ordenou que vivesse.
Desde então, com uns poucos companheiros,
Em florestas remotas e silenciosas eu vago, longe
daqueles
Antigos companheiros de cenários populosos.
Com poucos parceiros e não querendo nada mais.


"O Sorriso Escondido de Deus" - John Piper - Ed. Shedd




SEGUNDO CONTO: LIVRO DA TERRA E DOS HOMENS [Fragmento 6]
Carlos Nejar

Os homens eram sombrios,
esfinges de solidão.

Os homens eram sombrios.
Quiseram tecer de sonhos
a água verde dos rios.

Os homens eram amargos.
Quiseram compor o cisne
nas águas verdes dos lagos.

Os homens eram ardentes
como tochas de amaranto.
Sobre o rosto do poente
deixaram rosas de pranto.

Eram terríveis, terríveis,
Contra o céu do esquecimento
lançavam gumes de fogo
e adormeciam no vento.

Os homens eram de veneto
(de um vento predestinado).

Braços de ferro no tempo
entre o presente e o passado.

Os homens eram ferozes
como estrelas de ambição.

Mas no tempo primavera,
se primavera chegasse,

eram brandos como espuma,
eram virgens como espada,
eram suaves, suaves
como aves de abandono.

Os homens eram de estrela
soprando sobre o canal.
Não era estrela de noite
mas estrela de metal.

Os homens eram de estrela
e não podiam sustê-la.

Os homens eram de treva,
fizeram-se escravos dela.

Os homens eram remotos
no grande túnel de pedra.

Nem alga nem alfazemas
nem junco nem girassol.

Floração ali não medra
longe da terra do sol

Floração ali não medra,
Todo que nasce é de pedra.

O homem nasceu do vento,
mas sepultou-se na pedra.

O tempo nasceu do homem,
mas o homem não é pedra.

O tempo formou-se pedra
na eternidade da pedra.

Um sol compreendeu o homem;
era fogoso e de pedra.

Menino não como os outros,
menino feito de pedra.

Braços, só braços e mãos
na madrugada de pedra.

Os homens donde vieram
com seu destino de pedra?
Que procuravam os homens
na eternidade de pedra?

Eram hálitos de aurora,
luz florescendo caverna?
Eram só pedra.

Talvez fonte, vento-vento,
folhagem sobre montanha,
cintilações, pensamento?
Eram só pedra.

Talvez crianças, relâmpagos,
paredes de som, cantigas?
Eram só pedra.

Rostos ocultos no sono,
barcos de ânsia, velame?
Eram só pedra.

Talvez carícia, sossego,
desejo de despertar?

Eram só pedra de pedra.
Os deuses eram de pedra,

os homens eram de pedra
na eternidade de pedra.

Pedra de aurora, mas pedra,
Os homens eram pedras.

Lábios de pedra, mas pedra.
Os homens eram pedras.

Ventre de pedra, mas pedra.
Os homens eram pedras.

Noite de pedra, mas pedra.
Os homens eram pedras,

os homens eram pedras.
Os homens eram pedras.

Eram as pedras, as pedras.
Eram as pedras.


Do livro "breve história do mundo". Ediouro